Maria Lucília Bonacho
A Escola era como um pequeno país, com pessoas simpáticas e antipáticas, pacientes e impacientes, generosas e egoístas, bendizentes e maldizentes, que trabalhavam juntas e juntas se construíam e desgastavam.
Disse que a Escola era como um
país. E era. Tinha regras que se cumpriam e outras que não se cumpriam. Tinha
governantes que eram eleitos democraticamente e governavam. Tinha governantes
que, democraticamente, exerciam o seu direito de pôr, opor e dispor, conforme a
influência dos seus líderes ou sensibilidades. Possuía as zonas distintas dos
grupos, as pequenas capelas da oposição, os círculos presidencialistas e as
largas faixas dos neutros. Em resumo: tinha um corpo docente de uma centena de
indivíduos, exercendo uma das profissões mais gratificantes e esgotantes do
mundo.
Por isso, quem tenha a triste
idéia de pensar que levar uma escola para a frente é tarefa fácil, é porque
conhece muito pouco da natureza humana e das suas fraquezas!
Fazer com que, dia após dia, uma
população de, aproximadamente, mil almas, conviva em paz e sossego, recebendo
cada um o que lhe é devido, desde comida a respeito, é uma tarefa que requer,
por vezes, virtudes gigantes que não possuímos. Porque numa escola acontece de
tudo. Uma escola não é um edifício com muitas salas onde os meninos entram a
toque de campainha, recebem ensinamentos e tornam a sair. Para começar, as
campainhas, de vez em quando, não tocam e então, gera-se um crescendo de gritos
e assobios que, ao rolar pelos corredores, leva às portas da loucura os mais
nervosos.
Uma escola faz-se todos os dias
com muita Bondade e Firmeza. Fazem-na todos os que nela trabalham. Sem nenhuma
exceção. E quando alguém falha (e todos os dias falham sempre alguns), as
faltas vêm ao de cima como nódoas de azeite e ficam à vista de quem sabe
entender. O pior é que, uma vez toleradas, se pensam aceites e se instalam de
vez. Depois, como um vício, só são extirpadas com lutas penosas e o sofrimento
daqueles que atacam e de quem se defende. E nem toda a gente, devemos sabê-lo,
nasceu campeã de causas perdidas!
Uma escola é também um lugar onde
é preciso saber, e depressa, o que se faz quando:
se partem braços
se tomam drogas
se roubam objetos
se cortam veias
se atropelam alunos
se instauram processos
se anavalham rivais
se apalpam garotas.
É o lugar onde os encarregados de
educação vêm:
desabafar
perguntar
pedir
exigir
gritar
ofender
ameaçar...e, por vezes, bater! É
o sítio onde mães de famílias respeitadas são desrespeitadas até à neurose, à
raiva e ao pranto, só porque não possuem as doses exatas de autoridade e
ternura que despertam respeito nesta seiva a ferver.
Uma escola é também um lugar
cheio de explosões de sons agressivos, onde as dores de cabeça serão
enxaquecas, os aborrecimentos se transformam em depressões e as depressões em
psicoses.
Ah!, mas é também um lugar
maravilhoso, onde os olhos de uma criança, de repente, se acendem e aquecem
quem vê. É o lugar onde as lágrimas podem ocultar uma imensa alegria e um
sorriso tenso, um drama sombrio.
É o país do Ontem, do Hoje e do
Amanhã, onde os professores apelam incessantemente às fontes da paciência, em
nome dos meninos que eles foram, e onde semeiam, sem saber se o joio vencerá o
trigo ou se a colheita será farta ou não.
É o Reino dos Poetas, dos
Homens-Meninos e daqueles que ouvem, no centro da alma, o que diz o silêncio da
criança que olha.
É um país, sim, e um país
singular, porque aí se exercem, a todas as horas, persistentemente, o Amor e a
Paz. E isso é difícil: não nascemos anjos.
(Maria Lucília Bonacho - O Futuro
está a estudar)
Fonte: Extraído do site Aldeia
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